domingo, 26 de outubro de 2014

Anneliese Michel: a adolescente que inspirou “O Exorcismo de Emily Rose”

Anneliese Michel: a adolescente que inspirou “O Exorcismo de Emily Rose”
Se você ainda não viu, provavelmente já ouviu falar de “O Exorcismo de Emily Rose”, um dos filmes de terror mais fortes de todos os tempos. O que você talvez não saiba é que ele foi feito inspirado na história de uma jovem chamada Anneliese Michel, nascida na cidade alemã de Leiblfing em 1952 e morta em Klingenberg am Mainque, em 1976.
Foi aos 16 anos que Anneliese começou a apresentar sérios problemas de comportamento. A família da jovem procurou ajuda médica – ela já tinha um histórico de distúrbios mentais e epilepsia –, mas nenhum tratamento resolveu a situação e, depois de algum tempo desenvolvendo comportamento agressivo, rasgando roupas e até mesmo defecando em público, Anneliese disse a sua família que estava possuída por espíritos demoníacos e implorou por ajuda.

Medo


A casa da família, a essa altura, já era conhecida na vizinhança como um lugar onde coisas estranhas aconteciam. Lá, Anneliese e seus pais viviam em uma rotina de medo e incerteza. Ainda que os médicos tivessem dito que a adolescente sofria transtornos psiquiátricos, a experiência da jovem parecia ir além do que qualquer diagnóstico médico era capaz de descrever.
Assustados, os pais da jovem conseguiram autorização com o bispo da cidade e, com a ajuda de um padre, passaram a realizar exorcismos consecutivos – foram 67 rituais em nove meses de tratamento religioso, de acordo com Elizabeth Day, que escreveu sobre o assunto no Telegraph. O processo resultou na morte de Anneliese, desnutrida e desidratada, pesando pouco mais de 30 kg, em 1976.
A desnutrição foi ocasionada graças aos inúmeros jejuns aos quais a garota se submetia, na crença de que isso afastaria os demônios de seu corpo. Pelas condições da jovem no momento de sua morte, seus pais e os dois padres responsáveis pelos exorcismos foram considerados culpados por homicídio negligente.
Em 1999 o pai de Anneliese morreu e, a partir de então, Anna Michel, mãe da jovem, morou na mesma casa, sozinha, dormindo em um quarto que dá para o jardim onde está enterrada a filha. Sobre o túmulo, uma cruz, com a inscrição “descanse em paz”.

Adaptação


O filme “O Exorcismo de Emily Rose” deixa de seguir o padrão de “O Exorcista” e, em vez de se focar nos momentos de possessão, acaba se voltando mais às consequências legais que envolveram os padres e os pais de Anneliese. Anna soube a respeito do lançamento do filme e, em declaração publicada no Telegraph em 2005, disse que não queria assistir ao longa nem saber nada a respeito.
Apesar de nunca ter gostado de falar a respeito da morte da filha, Anna disse não se arrepender de suas ações. Extremamente religiosa, Anna acredita que a filha precisava realmente passar pelos rituais de exorcismo: “eu sei que nós fizemos a coisa certa porque eu vi o sinal de Cristo nas mãos dela” revelou. Anna disse também que a filha morreu para salvar outras almas pecadoras.
Quando falou sobre a filha antes das sessões de exorcismo, Anna, que deu a entrevista já na casa dos 80 anos, disse que Anneliese era uma garota gentil, amável, doce e obediente, “mas quando ela estava possuída era uma coisa não natural, algo que não se pode explicar”, completou a mãe ao descrever a filha.

Pecado


A família religiosa de Anneliese tinha um segredo: Anna teve uma filha antes do casamento, Martha. Devido a isso, Anna foi obrigada a se casar usando um véu preto e prometeu à sua família que a filha “ilegítima” teria uma vida religiosa. Acontece que Martha morreu aos oito anos de idade, durante uma cirurgia para remover um tumor nos rins. O peso do pecado da mãe passou de uma filha para outra.
Ao contrário das outras crianças de sua idade, Anneliese levava uma vida cheia de punições, para pagar os pecados da mãe. Que fique claro que não era Anna quem mandava que a filha se sacrificasse, mas a própria Anneliese fazia questão, por exemplo, de dormir em um chão de pedra como sacrifício pelas almas pecadoras do mundo.

Histórico


As convulsões começaram em 1968, quando a garota tinha 17 anos. Diagnosticada com epilepsia, Anneliese começou a ter alucinações sempre que rezava. Em 1973 ela enfrentava um quadro grave de depressão, com pensamentos suicidas. Nessa mesma época ela começou a ouvir ordens de vozes que vinham de sua cabeça.
A situação ficou tão crítica que, em determinado momento, ela já estava realizando 600 flexões de joelho por dia, o que acabou rompendo alguns ligamentos da região. Além disso, ela se arrastava embaixo da mesa e latia. Anneliese chegou a comer aranhas e morder a cabeça de um passarinho morto. Ela urinava no chão e lambia o próprio xixi. Quando não estava fazendo alguma coisa bizarra, gritava por horas sem parar.
Em 1975 a família conseguiu autorização do bispo de Wurzburg para realizar os exorcismos pelos quais a jovem passou nos últimos meses de sua vida. A essa altura, Anneliese já havia sido diagnosticada como esquizofrênica, mas recusou-se a tomar os remédios prescritos. Outro detalhe importante: em 1973, “O Exorcista” foi lançado – algumas pessoas dizem que o filme pode ter influenciado o comportamento da jovem – será?

Sessões


O fato é que um padre e um pastor realizaram sessões de exorcismo semanalmente em Anneliese, em rituais que demoravam até quatro horas. O padre Arnold Renz disse ter identificado vários demônios no corpo da jovem, entre eles os de Lúcifer, Judas, Nero, Cain e Adolf Hitler, que teria falado com sotaque austríaco.
Das sessões, há 42 horas de áudio gravadas – dizem que quem ouve fica apavorado. As gravações revelam diálogos entre os supostos demônios, gritos, sussurros, grunhidos e palavrões. Os exorcismos geralmente chegavam ao ponto de Anneliese precisar ser acorrentada.
Em 1976, a jovem já estava visivelmente doente: magra, pálida e com pneumonia, ela ia enfraquecendo cada vez mais até que morreu no dia 1 de julho do mesmo ano. Por mais que quase 40 anos tenham se passado desde então, o assunto é evitado pelos quase 2 mil moradores da cidade até hoje.
O caso envolveu a igreja católica também, que, em 1984, pediu que o Vaticano revisasse os rituais de exorcismo com base no caso de Anneliese – um novo ritual só foi publicado em 1999. De acordo com o Vaticano, são praticados em média 350 rituais de exorcismo anualmente em todo o mundo.

domingo, 1 de junho de 2014

Que tal uma cobra com mais de uma tonelada e que devora crocodilos?

Há 60 milhões de anos, as altas temperaturas do Paleoceno tornaram possível a existência da Titanoboa, uma serpente tão colossal que precisava submergir na água para diminuir os efeitos da gravidade


Então aquela enorme anaconda do filme homônimo sempre povoou os seus piores pesadelos — a despeito de você saber que ela, de fato, não pode ser encontrada entranhada nos confins da floresta amazônica? Bem, e se nós disséssemos que uma criatura de dimensões muito semelhantes chegou a deslizar suas escamas pela superfície da Terra? E ela já foi até batizada: Titanoboa.
Trata-se, de fato, de uma criatura pelo menos 10 vezes mais pesada do que a média de uma anaconda. E, é claro, a Titanoboa é de longe a maior cobra que já viveu. Um verdadeiro colosso, haja vista suas medidas: 1,1 mil quilogramas e cerca de 15 metros de comprimento. Na verdade, ela era tão colossal que acabava tendo problemas com a boa e velha gravidade.

Microgravidade simulada em vida aquática

Há uma boa razão para que

a maior criatura viva hoje habite os oceanos. De fato, os efeitos devastadores da gravidade terrestre sobre uma pobre baleia azul encalhada são bem conhecidos por qualquer ativista de plantão. De fato, é na água que o imenso mamífero consegue atenuar os efeitos da gravidade, efeito que é conhecido como simulação de microgravidade.
Bem, as coisas devem ter funcionado mais ou menos assim também para a titanoboa. De acordo com os paleontólogos, a espécie passava boa parte do seu dia sob a água, pelo mesmo motivo da baleia azul: para proteger-se das leis da física. Conforme é bem sabido, as cobras são exímias nadadoras — o que ainda deve valer para uma criatura com 15 metros de comprimento, acredita-se.
Reprodução/Wired
“Ela certamente passava grande parte do seu tempo submergida”, disse David Polly, paleontólogo da Universidade de Indiana, em entrevista ao site Wired. “Nós sabemos isso tanto pela geologia na qual ela foi preservada quanto por uma inferência baseada em suas dimensões.”
Em outras palavras, a titanoboa devia experimentar certo desconforto ao se deslocar em terra — expediente de que fazia uso, possivelmente, apenas para eventuais caçadas. Até porque, como é bem sabido pela ciência, as cobras também são excelentes em prender a respiração, podendo facilmente chegar a 45 minutos de submersão. Ou elas simplesmente mantêm apenas o nariz para fora d’água, é verdade.

Sem glândulas de veneno (e precisa?!)

Da mesma forma que ocorre com diversas outras espécies de cobras desprovidas de glândulas de veneno, acredita-se que a titanoboa caçava de forma silenciosa, surpreendendo sua presa — que então era estrangulada até desfalecer. E isso com um aperto tão forte que não interrompia apenas a respiração, mas impossibilitava completamente o fluxo sanguíneo da vítima (assim como faz a anaconda, também chamada de sucuri em território tupiniquim).
Reprodução/Wired (Bebeto Matthews)

tudo era gigantesco na época

Sim, a titanoboa tinha dimensões, de fato, impressionantes. Entretanto, essa estranheza faz mais sentido atualmente, já que, à época, é provável que grande parte das caçadas do réptil tenham envolvido criaturas de tamanhos igualmente colossais — digamos, tartarugas com mais de 6 metros ou crocodilos que passavam facilmente dos 15 metros de comprimento. Naturalmente, há um motivo bastante razoável para esse gigantismo todo.
Conforme explicou o biólogo alemão Carl Bergmann já no século XIX — no que ficou conhecido como a “Lei de Bergmann” —, em zoologia, há um princípio que correlaciona as temperaturas externas e a relação entre a superfície do corpo e o peso dos animais endotérmicos (nós, os de “sangue quente”).
Reprodução/Wikipedia
Ok, isso é mais simples do que pode parecer. Basicamente,

um mamífero, por exemplo, tende a ser tanto maior quanto menor for a temperatura média do ambiente que ele se insere — haja vista, por exemplo, o rotundo urso polar, com todas as suas camadas de gordura corporal.
Isso ocorre porque, conforme uma criatura ganha massa, seu volume passa a se tornar cada vez maior em relação à superfície do seu corpo. Dessa forma, acaba sendo mais fácil resfriar a estrutura toda se o ambiente em volta colaborar, certo?

Quanto maior a temperatura, maior será o réptil

Bem, só que no caso dos chamados “animais de sangue frio” isso funciona de forma exatamente contrária: quanto mais quente for o clima, maiores serão as criaturas pecilotérmicas (outro nome para “de sangue frio”).
E nisso se inclui, naturalmente, não apenas a titanoboa, mas também grande parte de suas presas que dividiam com ela as temperatura relativamente elevadas do Paleoceno. Répteis e anfíbios continuam crescendo e crescendo, até encontrarem um limite dado pela temperatura externa — em proporção direta, no caso.
Entretanto, considerando-se que a temperatura dos animais de sangue frio tende a acompanhar a do ambiente, é de se acreditar que a tibanoboa acabasse torrada caso seus banhos de sol fossem prolongados demais. Eis, portanto, outro motivo para a vida parcialmente aquática da espécie.
Reprodução/Wired
“O clima no Paleoceno, em que viveu esse animal, era muito mais quente do que o atual”, disse Polly ao referido site. “Isso deve ter possibilitado a existência de répteis maiores — não apenas a titanoboa, mas também crocodilos e tartarugas muito maiores do que as espécies atuais.” Em tempo: considerada a elasticidade dos interiores dessas cobras, é de se imaginar o quão cômico devia ser o formato assumido por seu corpo após ingerir uma tartaruga gigante.
Ademais, embora tenha sido a espécie com maiores dimensões corporais descoberta até hoje, a titanoboa não era a única a complicar a vida das presas não favorecidas pelo clima quente. Ocupando um segundo lugar próximo, havia também a serpente gigantophis, com impressionantes 10 metros de comprimento.

Habitat e extinção

Quanto, exatamente, a titanboa deixou de existir é algo que os cientistas ainda não conseguem responder com absoluta certeza. Entretanto, os locais em que os fósseis foram encontrados pelo menos ajudam a reforçar as informações sobre o habitat original da espécie.
Ao perecer nos leitos de rios, as titanboas encontraram um ambiente devidamente protegido de escavações e também também do poder constante da erosão. De fato, as superfícies pantanosas em que alguns exemplares foram encontrados são normalmente associadas à excelente produção fóssil — o que, naturalmente, também se aplica à produção de combustíveis fósseis, oriundos do bom e velho “ouro negro”, o petróleo.
Reprodução/Wired (David Polly)
“[Os fósseis da titanoboa] foram recuperados em uma das maiores minas de carvão a céu aberto do mundo, em Cerrejón [Colombia]”, disse David Polly à Wired. “E o carvão é formado essencialmente pelo resto de plantas que, ao cair na água, não se decompuseram com tanta velocidade, sendo então enterradas por sedimento que também caiam na água” — como nos efeitos de uma enchente, por exemplo.
Ao longo das diferentes eras geológicas, novas camadas se formaram, originando tipos distintos de rochas. Entre elas, a argila, onde os paleontólogos, de fato, encontraram os restos da espécie — provavelmente ignorada por mineradores, mais interessados no carvão da região.
Reprodução/Wikimedia Commons
De qualquer forma, é certo que, no clima atual, seria impossível que uma criatura como a titanoboa pudesse se formar e sobreviver adequadamente — posto que suas dimensões não permitiriam (confira acima). Dessa forma, a menos que uma catástrofe ambiental sem precedentes ocorra, é pouco provável que você encontre essa espécie gigantesca em algum lugar que não na forma de uma escultura de museu. Sim, ainda bem.